A sala nobre da Embaixada de Portugal em França encheu-se no dia 8 de dezembro para mais um concerto do ciclo Musicorama. Desta vez, o Trio Pangea assumiu o protagonismo. O grupo conduziu o público numa viagem sonora que uniu três épocas e duas tradições musicais. Tudo decorreu sob o tema da homenagem a Gabriel Fauré e António Fragoso.

O pianista Bruno Belthoise explicou à LusoPress a lógica do programa e sublinhou a pertinência do encontro entre os dois compositores: “Interpretámos três trios distintos. O primeiro foi de António Fragoso, um jovem compositor português que morreu muito cedo, mas que deixou obras de grande interesse, já a mostrar a fusão entre o romantismo e a modernidade. Era importante homenageá-lo, até porque admirava profundamente a música francesa”.
Com esta afirmação, o pianista preparou assim o público para o percurso estético que ligou Fragoso a Fauré, mesmo sem o compositor francês ter alguma vez visitado Portugal.
Fauré como ponte entre épocas
Entre o trio de Fragoso, composto em 1916, e o trio de Fauré, concluído em 1923, surgiu o momento mais esperado da noite: a estreia parisiense do novo trio de Tiago Derriça, escrito em 2024 como tributo direto ao mestre francês. Belthoise revelou o entusiasmo da formação: “Foi um prazer apresentar este conjunto de três trios, criando um diálogo entre épocas e linguagens distintas. O Tiago Derriça é um músico inspirado e esta obra mostra isso com enorme clareza”.
A acústica da sala, repleta com mais de 130 espectadores, reforçou o impacto do programa: “A energia de uma sala cheia transforma sempre a interpretação. Sentimos um acolhimento extraordinário e isso refletiu-se no som do trio”.
O pianista acrescentou ainda que a posição do piano intensificou a reverberação e elevou a experiência dos intérpretes e do público.
Musicorama: uma nova tradição portuguesa em Paris
Criado pela Embaixada de Portugal em França em parceria com Bruno Belthoise e o conselheiro cultural Jorge Barreto Xavier, o Musicorama tornou-se rapidamente numa plataforma essencial para a música portuguesa na capital francesa. Belthoise confessa o entusiasmo: “É um enorme prazer organizar esta série e escolher os artistas. Musicorama nasceu de um interesse mútuo pela música portuguesa e agradeço a confiança da Embaixada”.
O Embaixador de Portugal em França, Francisco Ribeiro de Menezes, reforçou esse sentimento e valorizou o impacto crescente da iniciativa: “Este ciclo está a tornar-se numa tradição em Paris. O público apreciou muito o concerto e é gratificante ver a Embaixada aberta e viva para a cultura”.
O diplomata destacou também a diversidade do público, desde membros da comunidade portuguesa a franceses ligados ao meio universitário, cultural e empresarial.
Trio Pangea: entre heranças e novas criações
O Trio Pangea continua a afirmar-se como defensor do repertório português, nomeadamente com o projeto Portuguese Piano Trios. A nova formação, que integra oficialmente Sarah Ledoux desde 2025, reforça a ligação ao repertório contemporâneo. O violinista Léo Belthoise mantém a dimensão inovadora do grupo, enquanto Bruno Belthoise continua a unir tradição e modernidade através da sua curadoria rigorosa.
O concerto de 8 de dezembro celebrou assim a genealogia musical franco-portuguesa, renovada pela escrita de Derriça e pela energia interpretativa do trio. Com programação assegurada até ao verão, o Musicorama afirma-se cada vez mais como um encontro mensal indispensável da cultura em Paris e uma vitrina essencial da música portuguesa em França.




