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Roupa sem Fronteiras: solidariedade em França enche camiões de ajuda

A solidariedade da comunidade portuguesa em França voltou a ganhar força. Desta vez, a mobilização surgiu no âmbito da campanha Roupa Sem Fronteiras, organizada pela Academia do Bacalhau de Paris. A associação promoveu uma recolha excecional de roupa e artigos para o lar destinados às vítimas das tempestades e inundações que atingiram várias regiões de Portugal desde 28 de janeiro.

Roupa sem Fronteiras: solidariedade em França enche camiões de ajuda

A triagem das doações realizou-se a 7 de março nas instalações da AMP, em Collégien, na região parisiense. Ao longo do dia, dezenas de voluntários participaram na organização das ofertas. Ao mesmo tempo, a chegada constante de carros carregados de sacos e caixas revelou uma adesão muito superior ao esperado.

Habitualmente, esta campanha decorre em novembro. No entanto, a dimensão da calamidade em Portugal levou a Academia a avançar com uma ação extraordinária, já que muitas famílias ficaram desalojadas e numerosas habitações sofreram graves danos.

Uma adesão muito acima das previsões

Segundo o presidente da associação, Francisco da Cunha Leal, a mobilização surpreendeu até os organizadores. “Hoje estão aqui presentes muitas pessoas para participar numa recolha que, na verdade, não estava prevista. Foram as circunstâncias em Portugal que levaram a Academia a decidir organizar esta recolha de roupas para enviar para os mais desfavorecidos no país”, explicou em declarações à LusoPress.

Por outro lado, o elevado número de donativos trouxe também alguns desafios logísticos. “Trata-se de uma situação imprevisível que acabou por criar alguns desafios, porque faltam cartões e a adesão foi muito superior àquilo que estava inicialmente previsto. Ainda assim, esta mobilização demonstra que os portugueses sabem ser solidários quando é preciso”, afirmou.

Enquanto isso, os voluntários continuaram a separar e a embalar os artigos recebidos. O volume de material recolhido acabou por ultrapassar largamente o habitual. “Ainda há muito trabalho pela frente. A ideia inicial era apenas complementar a recolha de novembro. Contudo, a realidade superou as expectativas”, sublinhou o presidente.

De acordo com Francisco da Cunha Leal, o número de donativos impressiona. “Já temos várias paletes cheias e, somando tudo o que ainda está por organizar, o volume corresponde provavelmente a cerca de três camiões de roupa, quando normalmente apenas se enche um.”

Depois de concluída a triagem, os donativos seguirão para Portugal. A Academia pretende identificar as zonas mais afetadas para garantir que a ajuda chega a quem mais precisa.

Testemunhos revelam dimensão da tragédia

Alguns membros da Academia testemunharam diretamente os estragos provocados pelas tempestades. O próprio presidente recordou uma recente deslocação a Portugal. “Nas Caldas da Rainha, de onde sou natural, não houve grandes estragos. No entanto, quando fui até à Marinha Grande e ao Pinhal de Leiria, o cenário mudou completamente. Aquilo que vi foi profundamente triste. Para quem vive nessas zonas, o que aconteceu foi realmente uma tragédia”, contou.

Por sua vez, a vice-presidente da Academia, Odete Jesus, destacou o espírito solidário da comunidade portuguesa em França. “Alguns dos valores da Academia são a solidariedade e a portugalidade, e esta iniciativa representa exatamente esse espírito”, afirmou.

Além disso, a responsável salientou a dimensão da mobilização. “O fluxo de donativos tem sido constante ao longo do dia, com carros a chegar sucessivamente. Isso mostra bem a cadeia de solidariedade que se criou em torno desta ação.”

Histórias pessoais que reforçam a solidariedade

Entre os voluntários encontrava-se também Clotilde Antunes Lopes, comadre da Academia e natural da região de Leiria. A ligação pessoal à zona afetada aumentou a sua motivação para participar. “Existe uma grande mobilização para que possamos ser solidários com aquilo que aconteceu na nossa zona centro de Portugal”, afirmou.

Após as tempestades, Clotilde deslocou-se ao país para apoiar a mãe, residente em Monte Real. “Fui sobretudo porque a minha mãe estava sozinha. É uma senhora de 85 anos e estava em casa sem luz, sem água, sem nada. Fui buscá-la”, contou.

Mesmo tendo chegado alguns dias depois do temporal, o cenário deixou-a profundamente marcada. “Quando cheguei, o cenário era horrível, de cortar o coração. Nos sítios onde costumávamos ver muitas árvores e vegetação, estava tudo destruído. Parecia quase uma paisagem do fim do mundo.”

Também Armindo Freire, voluntário habitual da iniciativa, destacou a dimensão da mobilização. “Acompanho a campanha Roupa Sem Fronteiras há cerca de dez anos e esta é certamente a edição com maior participação”, afirmou.

Além disso, recordou o impacto da visita que fez às zonas afetadas. “Quando fui ver a situação no dia seguinte à tempestade, não estava preparado para aquilo que encontrei. Já estive noutros países onde ocorreram tempestades e tornados, mas aquilo que aconteceu em Portugal foi realmente excecional.”

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