No início de dezembro, o frio parisiense misturou-se com o calor da tradição cultural portuguesa durante um Concerto de Natal que encheu a Mairie do 17.º bairro. O Consulado-Geral de Portugal em Paris organizou o evento e reuniu dois pianistas que partilham uma profunda ligação à música portuguesa: o português João Costa Ferreira, diretor da Maison du Portugal – André de Gouveia, e o francês Bruno Belthoise, defensor apaixonado do repertório lusitano. Juntos, criaram uma viagem sonora que emocionou o público.

A Cônsul-Geral Adjunta, Mafalda Paiva de Oliveira, sublinhou a missão do consulado: “Ao longo do último ano, quisemos promover iniciativas que mostrem o melhor que se faz em Portugal”. Destacou ainda que estas ações “já ultrapassam as paredes do consulado”, aproximando-se da comunidade franco-portuguesa através de parcerias locais.
A Cônsul-Geral Mónica Lisboa reforçou essa mensagem ao admitir que o concerto teve um significado especial: “Falou de nós, da nossa música clássica, ainda tão pouco conhecida em França”. Para Cônsul-Geral, levar esta cultura à “casa francesa” fortaleceu laços diplomáticos e emocionais.
Um programa que revela a alma portuguesa
O público mergulhou num programa cuidadosamente construído. Em primeiro lugar, João Costa Ferreira abriu com um noturno de António Fragoso, lembrando que o jovem compositor “estava prestes a vir estudar em França”. Depois, interpretou As Inundações de Múrcia, de José Viana da Mota, escrita quando o músico tinha apenas 11 anos.
O pianista uniu-se depois a Bruno Belthoise para Duas Borboletas para Olga, de Sérgio Azevedo, num diálogo leve e luminoso.
Bruno Belthoise prosseguiu com peças de Luís Costa, inspiradas no Minho, e com os Prelúdios Op. 1 de Armando José Fernandes. Os dois pianistas regressaram ainda ao palco para interpretar a emotiva Balada para uma Criança que Vai Nascer, de António Victorino d’Almeida.
No final, surpreenderam a audiência com Soundtrack, da compositora Olga Silva, peça que, segundo João Costa Ferreira, encaixou “na perfeição no espírito natalício”.
Uma sala cheia e uma energia contagiante
A sala recebeu mais de duas centenas de pessoas, criando um ambiente vibrante. “Sempre que a sala está cheia, sentimos uma energia adicional”, confessou Belthoise. João Costa Ferreira concordou: “Torna-se até mais fácil tocar assim”. O pianista francês revelou ainda que vários dos seus alunos estiveram presentes, algo que considera importante para despertar interesse pela música portuguesa.
A descoberta da cultura portuguesa
Muitos espectadores reagiram com surpresa. Mafalda Paiva de Oliveira ouviu comentários como “Não conhecia isto” ou “Desconhecia este lado dos portugueses”, o que, para a Cônsul-Geral Adjunta, confirma o impacto cultural do concerto.
O Conselheiro de Paris, Jean-Didier Berthault, descreveu o evento como “um belo presente de Natal”. Admirou a oportunidade dada ao público francês para descobrir artistas portugueses e admitiu: “Foi excecional, e toca-me ainda mais porque a minha mãe era pianista”.
Uma ponte musical duradoura
Bruno Belthoise partilhou ainda a origem da sua ligação a Portugal: “Tudo começou com a minha primeira visita ao país aos 14 anos”. Desde então, percebeu que o repertório português permanecia injustamente desconhecido em França, motivo que o levou a promovê-lo com dedicação.
Em suma, entre aplausos prolongados, o concerto fechou com a certeza de que a música portuguesa conquistou Paris. E abriu caminho para continuar a ecoar além-fronteiras, com a mesma emoção e autenticidade que encheram a Mairie do 17.º bairro.




