Presidenciais: Emigrantes desafiam distância para votar presencialmente em todo o mundo

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Os 1.777.019 emigrantes portugueses residentes no estrangeiro recenseados nestas eleições desafiaram a distância para votar ao longo do fim de semana para escolher o próximo Chefe de Estado nos consulados e outros postos diplomáticos espalhados pelo mundo.

MARCOS BORGA / LUSA

Mais de 11 milhões de eleitores são hoje chamados a escolher o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, numas eleições para a Presidência da República muito disputadas e com recorde de 11 candidatos.

Grande afluência em Londres

Vários portugueses viajaram cerca de duas horas para votar nas eleições presidenciais no Consulado-Geral de Londres esta manhã, onde era notória uma grande afluência, mas queixaram-se da falta de opção para votar remotamente. 

Entre os eleitores que viajaram de mais longe estava o casal João e Patrícia Teodósio, que viajou de Maidstone, a cerca de 65 quilómetros da capital britânica, com uma criança recém-nascida. 

“É um grande esforço. Agradecíamos ter uma forma de votar remotamente, de preferência digital”, afirmou João Teodósio, recordando que o voto por correspondência falhou nas últimas eleições legislativas devido a uma mudança de residência.

Ao contrário das eleições legislativas, que permitem tanto o voto presencial como o voto postal, nas eleições presidenciais apenas é possível o voto presencial.

Também André Guerra e a companheira percorreram cerca de 100 quilómetros desde Cambridge, aproveitando para pernoitar com a família em Londres. 

“Não estávamos cá nas presidenciais anteriores, por isso votámos por correspondência. Mas se fossem umas eleições europeias não teríamos vindo”, admitiu.

Já Helena Sampaio, residente em Londres, elogiou a rapidez do processo, apesar da grande mobilização. No entanto, alertou que muitos compatriotas podem ficar sem exercer o direito de voto. 

“Conheço pessoas que trabalham por turnos e não conseguem tirar o dia, e a minha prima telefonou-me hoje confusa porque ainda não tinha recebido o voto postal”, disse.

Outros eleitores, como Helena Ferreira, José Silva e Ermelinda Rocha, afirmaram ter votado pela primeira vez “porque o país precisa de mudar”.

Inês Câmara também se estreou a votar no estrangeiro, motivada pela importância desta eleição, mas lamentou que a mãe, de visita a Londres, não pudesse fazê-lo. 

“Devia ser mais fácil votar para quem estivesse fora. Mas espero conseguir votar na segunda volta”, afirmou Julieta Vicente.

Nestas eleições presidenciais, que decorrem hoje em Portugal, os eleitores portugueses residentes no estrangeiro puderam votar presencialmente ao longo do fim de semana, com urnas abertas desde sábado nos consulados e outros postos diplomáticos. 

No Reino Unido, foram abertas mesas nos consulados de Londres, Manchester e Belfast e, adicionalmente, nas ilhas de Man, Jersey e Guernsey, mas continuou sem haver uma solução na Escócia. 

Lugano (Suíça) com afluência acima de anteriores eleições

Ao longo da manhã, o escritório consular de Portugal em Lugano, no cantão de Ticino, sul da Suíça, registou um movimento constante de emigrantes portugueses que aí se deslocaram para votar, constatou a reportagem da Lusa no local, tendo os responsáveis da mesa de voto confirmado que a afluência está a superar as de anteriores eleições.

Num universo de 5.337 eleitores inscritos em Lugano, já votaram entre sábado e hoje a meio da manhã mais de 200 eleitores, o que representa “pelo menos mais de 50% de taxa de participação face a anteriores atos eleitorais”, quando ainda faltam mais de oito horas para o encerramento das urnas, indicaram à Lusa o presidente da mesa de voto, Pedro Gonçalves, e o vice-presidente, Carlos Dias.

“Pode-se dizer que estamos satisfeitos com esta participação, embora naturalmente que gostássemos que fosse mais elevada, já que estamos a falar de cerca de 200 eleitores num universo de mais de 5.000”, declarou Pedro Gonçalves. 

Nos atos eleitorais anteriores para escolha do Presidente da República, desde que foi estabelecido o voto emigrante para as presidenciais, em 2001, a abstenção foi sempre superior a 90%, o que também é atribuído ao facto de, nestas eleições, os portugueses que residem no estrangeiro apenas poderem votar presencialmente, algo que demove muitos devido às grandes distâncias que em alguns casos têm de percorrer.

Os emigrantes ouvidos pela Lusa à saída do escritório consular de Lugano – um dos cinco locais onde os portugueses residentes na Suíça podem exercer o direito de voto, além da secção consular da embaixada em Berna, os consulados gerais de Genebra e Zurique e o escritório consular em Sion – desvalorizam, no entanto, a exigência de voto presencial.

“Acho que é que muitos preferem ficar na cama a dormir ou ir para a tasca beber um copo de vinho”, diz à Lusa José Rocha, um dos membros de uma família de quatro portugueses que viajaram até Lugano desde Cadenazzo, localidade a cerca de 30 quilómetros de distância, e que, asseguram, regressarão para uma mais do que provável segunda volta.

Cristina Oliveira da Silva, que reside em Mendrizio, a aproximadamente 20 quilómetros de Lugano, considera por seu turno que “era preferível que fosse possível o voto por correspondência”, mas também não foi a exigência de voto presencial que a demoveu de votar hoje e, “se necessário, regressar para a segunda volta”.

Por seu lado, Jorge Machado, residente em Lugano, admite que tem votado mais frequentemente desde que é possível fazê-lo no escritório consular desta cidade (o que acontece desde 2008), pois “antes era preciso ir até Zurique”, a mais de 200 quilómetros de distância, e também este emigrante disse que “obviamente” vai voltar a votar na segunda volta.

Em Macau pede-se mais atenção a quem está longe

À porta do histórico edifício do Consulado-Geral de Portugal em Macau, portugueses que escolheram votar hoje – os emigrantes têm dois dias – celebram o momento democrático e exigem “mais cuidado” com quem vive longe.

Foi uma campanha presidencial “algo confusa – como está o mundo neste momento -“, mas que Cristina Osswald fez questão de acompanhar. E neste dia de inverno, mas de sol, em Macau, a portuguesa celebra a possibilidade de escolha. 

“Sempre que possível ia ouvindo entrevistas, debates e apresentações dos candidatos. Mas pareceu-me que, se calhar, há essa questão de uma dispersão de votos, que faz parte da democracia, não é? E sobretudo quando se vive num regime que não é democrático, claramente mais se aprecia a democracia”, diz à Lusa a docente da Universidade Politécnica de Macau depois de votar.

Mas o caminho que um eleitor de Macau percorre até ao momento do voto, sublinha Osswald, não é o ideal. A viver há seis anos fora de Portugal, a docente nota que os “procedimentos têm melhorado”, embora “continuem abaixo das expectativas”. 

“O mundo é cada vez mais global, não vejo razão para não haver voto eletrónico”, considera a docente, que, antes de Macau, passou por Florença, onde para votar tinha de se deslocar a Milão. “Podemos ir ao banco [‘online’], às finanças, e não conseguirmos votar ‘online’ parece uma coisa que não faz muito sentido. Acho que seria por aí que deveria também haver um maior investimento. Por exemplo, aqui, pessoas com pouca mobilidade não podem vir votar”, declara.

Cristina Osswald olha para a escadaria que conduz ao consulado, onde nesse momento, idosos sobem os degraus com dificuldade – apesar de, nas traseiras do edifício, haver uma outra porta com acesso a elevador.

“É a democracia que perde. Em tempos que são complicados e são, diria, quase dramáticos, acho que era uma coisa extremamente simples poder votar-se ‘online’”, continua a professora, referindo ainda a “pouca informação” em Macau sobre os procedimentos que antecedem o ato eleitoral. “Conheço muita gente aqui em Macau, sobretudo pessoas mais idosas, que não vêm votar, porque não foi divulgado que tínhamos que nos inscrever antes”, nota.

A escolha eletrónica tem sido uma reivindicação de longa data do Conselho das Comunidades Portuguesas, órgão consultivo do Governo para as políticas relativas à emigração e às comunidades portuguesas no estrangeiro. Rui Marcelo, presidente do Conselho Regional das Comunidades Portuguesas da Ásia e Oceânia, disse à Lusa, no ano passado, que o tema “foi abordado várias vezes e com vários governos”.

Félix Teixeira, técnico de laboratório reformado a viver em Macau há 30 anos, defende que votar ‘online’ poderia servir sobretudo regiões onde “a deslocação está dificultada”. “Macau é pequeno, aqui tanto faz”.

E que expectativas tem das presidenciais? Para o antigo funcionário do Instituto para os Assuntos Municipais, a multiplicidade de caras nos boletins é bom prenúncio: “Ouvem-se mais vozes”, diz. E para os emigrantes, sublinha, estar hoje aqui é aproximar-se de casa: “Se não estiver em contacto direto com o país, está-se fora de todo o circuito, da política e da esfera social”, concretiza.

De acordo com o consulado, existem mais de 150 mil portadores de passaporte português entre os residentes de Macau e Hong Kong. No entanto, inscritos para votar, o número é quase três vezes inferior: 57.748, segundo dados cedidos hoje à Lusa pela representação diplomática.

“Felizmente em Portugal sempre tivemos grande confiança nos resultados eleitorais. Há muitas pessoas que têm dúvidas relativamente ao voto eletrónico, mas julgo que se for bem conduzido, é uma boa opção”, diz, por sua vez, José Paulo Esperança.

À Lusa, o professor de Finanças da Universidade Cidade de Macau assume que espera elevada participação no escrutínio, porque “há preocupações para a democracia portuguesa” e “candidatos preocupantes”.

“Portugal – e o mundo – está com evoluções que me preocupam. Porque há cada vez mais subida da extrema direita e de fenómenos que são muito preocupantes”, afirma.

Nas presidenciais de 2021 votaram em Macau 1.479 pessoas, ou seja 2,1% do total de inscritos (70.134). 

Sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa toma posse em 09 de março

Esta é a 11.ª vez que os portugueses são chamados a escolher o Presidente da República em democracia, desde 1976. A tomada de posse do próximo chefe do Estado acontece em 09 de março, perante a Assembleia da República, como manda a Constituição de 1976.

Concorrem à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa 11 candidatos, um número recorde de candidatos em eleições presidenciais. 

São eles Henrique Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes (apoiado por PSD e CDS), António Filipe (PCP), Catarina Martins (Bloco de Esquerda), António José Seguro (apoiado pelo PS), o pintor Humberto Correia, o sindicalista André Pestana, Jorge Pinto (apoiado pelo Livre), João Cotrim Figueiredo (apoiado pela Iniciativa Liberal), André Ventura (apoiado pelo Chega) e o músico Manuel João Vieira.